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domingo, 18 de dezembro de 2011

Segunda Parte: A FIDELIDADE, FONTE DE VIDA PLENA


A FIDELIDADE, FONTE DE VIDA PLENA
A Vida Consagrada:
Profecia antropológica na pós-modernidade
Pascual Chavez Villanueva, SDB
Reitor-Mor dos Salesianos

5. A FORMAÇÃO PARA A RENÚNCIA
Finalmente, e ainda em relação à superação do "formalismo", é preciso falar de uma realidade que no nosso tempo mais que em qualquer outro, implica ir “contra a corrente”: a formação para a renúncia. Falando paradoxalmente, é preciso proporcionar a experiência da renúncia. Não é questão de olhar para tempos passados, quando este exercício tinha um caráter totalmente formal: a coisa mais importante era aprender a renunciar... para renunciar, para "avigorar a vontade." Ao contrário, é indispensável redescobrir o valor humano e cristão da autêntica renúncia, para poder viver uma experiência que seja enriquecedora, de maneira que seja assumida positivamente, e não conduza à frustração e à neurose.
Na pequena parábola do comerciante de pérolas preciosas (Mt 13, 45-46), encontramos alguns elementos fundamentais que nos permitem delinear a "fenomenologia da renúncia”:
a) – renuncia-se àquelas pérolas preciosas ("o comerciante vai e vende aquilo que tem") não porque sejam falsas: são autênticas, e constituíram até aquele momento o tesouro do comerciante. Aplicando à nossa realidade, não é certamente um método apropriado aquele que tenta diminuir o valor daquilo a que é preciso renunciar, a fim de que se torne mais fácil. Afinal, renunciar às “coisas más” não constitui a renúncia humana mais profunda e completa. Quantas vezes ouvimos perguntar, como resistência a uma renúncia necessária: “o que há de mal no que estou fazendo?” E tem toda a razão quem fala assim: apenas deve compreender que é justamente então, que se apresenta a oportunidade da renúncia no seu sentido mais autêntico.
b) - renuncia-se a pérolas autênticas, com dor e ao mesmo tempo com alegria, porque encontrou-se "a" pérola definitiva, aquela que encheu os olhos e o coração do comerciante: e ele compreende que não pode adquirir esta, se não vende aquelas. Se a nossa vida consagrada, centrada no seguimento e na imitação do Senhor Jesus, não resulta fascinante, torna-se injusta e desumanizante a renúncia que exige... como diz esplendidamente Potissimum Institutioni: "Somente este amor de caráter nupcial e que implica toda a afetividade da pessoa, permitirá motivar e sustentar as renúncias e as cruzes que encontra necessariamente aquele que deseja ‘perder a sua vida’ por causa de Cristo e do seu Evangelho (cfr. Mc 8, 35)” (n. 9).
c) - a alegria pela posse da "pérola preciosa" nunca elimina completamente o medo de que não seja autêntica: na hipótese de ela ser falsa, a minha decisão teria sido errada, e teria arruinado minha vida. Este "risco" na vida cristã, e mais ainda, na vida consagrada, é uma conseqüência direta da fé; somente na fé tem sentido a nossa vida: se não é verdade aquilo em que acreditamos, "somos os mais infelizes de todos os homens ", parafraseando São Paulo (cfr. 1Cor 15, 19). O dia em que, em qualquer dimensão da vida consagrada, se puder dizer: a "minha vida é plenamente gratificante, mesmo se não é verdade aquilo em que creio", o nosso Instituto se torna... uma ONG, com a agravante que implica certas exigências inaceitáveis para os seus membros...
d) - Jogando de novo com as palavras, não se deve apenas proporcionar a experiência da renúncia, mas também, em muitas situações, é necessária a renúncia à experiência, uma das coisas mais difíceis de entender e aceitar, hoje. Pensamos, por exemplo, no campo afetivo (e sexual): há aqueles que pensam, com as melhores intenções, que a renúncia lhes resultará mais fácil se viverem a experiência correspondente: "ao menos, sei a que renuncio." No fundo, tratase de uma miragem: não podemos seguir todas as diferentes estradas que a vida nos oferece, para escolher depois, numa etapa sucessiva, a que devemos seguir. O que é decisivo – e que uma sólida formação deve proporcionar – é que a pessoa assuma com maturidade esta decisão (palavra que conota, na sua etimologia, "cortar"), e não lamente, durante toda a vida, aquilo que nunca provou, tendendo assim, inevitavelmente, a superestimá-lo: o fruto proibido é sempre o mais desejável.

6. O CONTEXTO ATUAL: A PÓS-MODERNIDADE
Esperando que o que dissemos até agora exprima, de um ponto de vista específico, a situação antropológica da vida consagrada, é mister perguntar-nos: tudo isto constitui uma verdadeira novidade, com respeito a outros tempos? Ou se trata somente, como indicávamos no início, de uma tematização de aspectos que sempre estiveram presentes, ao menos implicitamente?
É evidente que não podemos falar de uma absoluta "novidade", porque seria ignorar que, como seres humanos, temos uma indubitável homogeneidade de base, que se manifesta em todo tempo e lugar. Utilizando uma expressão de Mircea Eliade, é preciso dizer que temos a mesma "estrutura arquetípica" ou, empregando uma imagem mais simples: ainda que a fotografia de cada um fosse muito diversa, a radiografia seria muito semelhante.
Todavia, já que se fala hoje de uma era nova e qualitativamente distinta na história da humanidade, deve implicar fatores que, ao menos na sua maior ou menor incidência, mudaram radicalmente. Concretamente, farei referência a um que concerne plenamente ao nosso tema.
O ser humano, embora viva sempre no presente (é uma verdade lapalissiana), é um "ser de futuro" (E. Bloch, W. Pannenberg): pela própria natureza, é colocado defronte do utópico, daquilo que ainda não "tem lugar" no nosso mundo e na história. Isto pode-se dizer, a fortiori, das gerações jovens, que recebem esta orientação para o futuro da sua própria identidade psicosomática, inscrita até na célula mais “humilde”.
Por isso, constatamos na situação pós-moderna uma tragédia: a ameaça de futuro que pesa sobre a humanidade coloca, sobretudo esta geração jovem, diante de uma contradição existencial: de um lado, com uma exigência irresistível de um horizonte de futuro, e do outro, com a carência deste horizonte. Se a esta atitude acrescentamos a recusa do passado por parte da cultura jovem atual, podemos entender a sua sensação de estar “encerrada” no espaço mínimo que lhe permite o presente, sem outra solução senão tentar "viver o instante que foge" (o átimo fugaz).
Esta ameaça manifesta-se duplamente: de um lado, naquilo que J. Moltmann chamou “a perda da inocência atômica" de Hiroshima em diante5: sabemos – e as notícias mais recentes no-lo recordam ainda – que desde alguns decênios, e pela primeira vez na história do mundo e do homem nele (pelo que sabemos), existe a possibilidade real (que depende, em concreto, da decisão de algumas pessoas) que desapareça a humanidade inteira, como conseqüência de uma conflagração nuclear. O fato de os chefes das nações chegarem a eventuais acordos a este respeito não elimina o perigo: como diz o próprio Moltmann, não recuperaremos jamais a inocência perdida. "A época em que vivemos é, mesmo se tivesse de durar até o infinito, a última época da humanidade... Vivemos no tempo do fim, isto é, daquela época na qual todo dia podemos provocar seu fim"6.
Por outro lado – e não totalmente deslisgada da precedente – encontramos esta ameaça na degradação ecológica, universal e irreversível: pensamos na poluição do ar, na diminuição da água doce, na destruição das matas, no vertiginoso aproveitamento das energias não renováveis.
Como diz o mesmo Moltmann, "todos somos iguais... defronte do buraco de ozônio." Esta "supressão de fora" do horizonte de futuro é um fator típico do nosso tempo, e é fundamental para compreender o obsessivo apego ao presente, e a necessidade de “satisfações” imediatas que caracteriza a era pós-moderna: pois não é a mesma coisa "querer viver o hoje” na perspectiva do amanhã, que ter de ancorar-se no hoje, porque talvez não haverá um amanhã...
Dias atrás um jornal, a respeito de uma recensão de um livro do Prêmio Nobel de Literatura, o escritor h’úngaro Imre Kertész, utilizava esta expressão: “É possível ter filhos depois de Auschwitz"? (evocação da célebre frase: "É possível crer em Deus depois de Auschwitz"?). é a pergunta que hoje se colocam tantos jovens diante do matrimônio e da família: não com um sonho de outros tempos, mas com a angústia diante do futuro no qual lhes caberá viver; vale então a pena trazer novos serres ao mundo? É incontestável que esta "privação de futuro", num sentido muito diferente, atinge também a vida consagrada, em particular as novas gerações.
7. “...EU ESCOLHO TUDO...!”
Poder-se-ia continuar aprofundando o tema da pós-modernidade, mas remeto aos estudos especializados que Vocês bem conhecem. Gostaria, porém, de convidá-los a refletir sobre o presente e o futuro imediato da vida consagrada, mais do que com conceitos teóricos, contemplando uma figura de santidade tipicamente atual na Igreja: Santa Teresinha de Lisieux.
Entre as suas diversas experiências, hoje se sublinha, com justa razão, a da incredulidade e do ateísmo que a santa viveu no final da sua vida, que soube descobrir como dom de Deus e assumir de forma extraordinariamente positiva, como solidariedade com "os distantes de Deus."
Agora desejo ressaltar um outro aspecto. Entre as muitas lembranças da sua infância, uma, aparentemente banal, é particularmente significativa. Um dia, sua irmã Leônia, pensando que era grande demais para brincar com boneca, foi ao encontro das outras com um cesto cheio de roupinhas e de retalhos destinados a fazer bonecas, para cada uma das irmãs escolher. Quando chegou a vez de Teresinha, ela mesma conta: "Estiquei a mão, dizendo: Eu escolho tudo!, e tomei o cesto sem muita cerimônia”7. Poderíamos chamar isto de atitude tipicamente "pósmoderna", de quem não quer renunciar a nada.
Não se trata de uma manifestação infantil de egoísmo: creio que antes exprime um traço muito profundo da sua personalidade. Com efeito, muitos anos depois, num dos momentos mais importantes do seu discernimento espiritual, aflora novamente este anseio em páginas que se tornaram clássicas na espiritualidade cristã: "Sinto em mim outras vocações: sinto a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de doutor, de mártir; em suma, sinto a necessidade, o desejo de realizar por ti, Jesus, todas as obras mais heróicas... Sinto na minha alma a coragem de um cruzado, de um zuavo pontifício: gostaria de morrer num campo de batalha pela defesa da Igreja (...). Como conciliar estes contrastes? como realizar os desejos da minha pobre pequena alma? (...) Durante a oração os meus desejos me faziam sofrer um verdadeiro martírio.
Abri as epístolas de São Paulo para procurar alguma resposta (...) Li que nem todos podem ser apóstolos, profetas, doutores, etc.; que a Igreja é composta de diversos membros, e que o olho não poderia ser ao mesmo tempo a mão... a resposta era clara, mas não satisfazia os meus desejos, não me dava a paz (...). Sem desencorajar-me continuei a leitura e esta frase me reanimou: 'Procurai com ardor os dons mais perfeitos: mas eu vos mostrarei um caminho ainda mais excelente.' E o apóstolo explica como todos os dons mais perfeitos nada são sem o Amor (...) Finalmente eu tinha encontrado o repouso! (...) A caridade deu-me a chave da minha vocação (...) Entendi que só o amor fazia agir os membros da Igreja: que se o amor devesse extinguir-se, os apóstolos não mais anunciariam o Evangelho, os mártires recusariam derramar o seu sangue... Entendi que o amor encerrava todas as vocações, que o amor era tudo, que o amor abrangia todos os tempos e lugares... Em suma, que o amor é eterno! Então, no excesso da minha alegria delirante, exclamei: Ó Jesus, meu Amor...! Encontrei finalmente a minha vocação! A minha vocação é o Amor"!...8
Só na medida em que centramos todo o nosso ser no amor a Deus e ao próximo, e fazemos com que a formação inteira, pela vida a fora, tenha a finalidade de crescer no amor, obteremos aquilo que parecia impossível: ter “o todo no fragmento” (evocando Von Balthasar).
Poderemos assim realizar, na limitação, na rotina e na "unicidade" da nossa vida, a totalidade da vocação cristã: compreenderemos que no amor se realiza o paradoxo extraordinário de sermos capazes de renunciar a tudo e, ao mesmo tempo e precisamente por isso, não renunciar, afinal, a nada daquilo que nos permite atingir a nossa plena realização; assim o entendeu e o viveu a pequena santa do Carmelo...
8. A FIDELIDADE NA ERA PÓS-MODERNA
Tudo o que dissemos, afinal, procura situar e robustecer nossa fidelidade consagrada, no tempo difícil e fascinante em que vivemos. Mencionávamos já desde o início que certamente a cultura atual não favoresce a prática da fidelidade: até mesmo, em alguns ambientes, a fidelidade matrimonial é quase uma "exceção."
A motivação bíblica a este respeito é imensa e fascinante. A palavra hebraica que se traduz geralmente por "fidelidade", hésed, conota em primeiro lugar, sobretudo quando se aplica a Javé, a solidez, a força, a persistência no tempo, em contraste com a fragilidade das promessas humanas. Por conseguinte designa a Aliança, tanto no seu aspecto "jurídico", como sobretudo na motivação fundamental que a torna possível, ou seja a solidez do amor de Deus. Neste sentido, comenta um grande exegeta: “A coisa mais maravilhosa para o povo de Israel, não é tanto que Deus o ama, e sim o fato que esse amor seja fidel, duradouro, apesar de tudo" (E. Jacob).
Há dois salmos que, em particular, cantam esta fidelidade do amor de Deus: o 117 (116) que, na sua brevidade, é uma verdadeira jóia: "Louvai o Senhor, povos todos (...) porque forte é o seu amor por nós, e a fidelidade do Senhor dura para sempre”.
De modo semelhante, o "grande Hallel" (136 [135]), não canta tanto o amor divino, mas sim sua fidelidade: “porque eterno é seu amor." Esta garantia do amor de Deus que é firme, sólido, fiel, encontra a sua plenitude no Novo Testamento, na nova e eterna Aliança, em Jesus Cristo.
A vida consagrada é, na sua essência mais profunda, aliança nupcial com Deus e conta com a garantia de sua parte; infelizmente, o "parceiro" humano da Aliança pode falhar; mas mesmo neste caso, "Ele permanece fiel, porque não pode negar-se a si mesmo" (2Tm 2, 13).
Seria muito enriquecedor tentar situar a fidelidade dentro do "paradigma" da
historicidade. Sendo impossível desenvolvê-lo longamente, mencionarei apenas alguns aspectos relevantes.
No início falamos do caráter permanente da formação, o seguimento e a imitação de Jesus Cristo "até a morte." Todavia convém aprofundar esta "permanência" para não acontecer conosco como com tantos casais que continuam a viver unidos por "inércia", embora tenha desaparecido o núcleo que dava sentido à sua aliança, o amor. Se partimos da convicção de que "a formação é a resposta livre à vocação", podemos deduzir a seguinte conclusão: somente pode existir a formação permanente se existe também a experiência da vocação permanente. O Senhor não nos chamou há 10, ou 20, ou 50 anos: chama-nos hoje, desde há 10, ou 20, ou 50 anos. Unicamente esta experiência alegre do Deus que nos ama e nos chama, torna possível uma resposta igualmente alegre e cheia de fidelidade. De maneira quase imperceptível incluímos aqui a historicidade, a experiência, a liberdade e a realização pessoal em Cristo.
Resta, porém, um problema ao qual a geração atual é particularmente sensível. É inegável a generosidade com a qual muitos rapazes e moças se consagram ao serviço dos outros, muitas vezes de forma total; todavia isto acontece por um período determinado de tempo: a coisa mais difícil é assumir um compromisso definitivo, pronunciar um “para sempre”, renunciar por princípio a qualquer outra possibilidade alternativa. “E se a vida me apresenta uma outra estrada? E se chego a encontrar a mulher (o homem) que poderia tornarme feliz? Se as circunstâncias, o lugar, a comunidade, o trabalho em que me encontro agora mudam radicalmente?” Todas estas perguntas têm em comum o fato de fazerem depender a fidelidade de um futuro externo a nós, do qual não podemos dispor. Diante disto, é necessário ressaltar, em todas as etapas da formação (até a morte), que a autêntica fidelidade não depende daquilo que “pode acontecer”, mas daquilo que eu decidi, e que cada dia renovo: o me amor fiel ao Senhor, na entrega total a meus irmãos e irmãs.
A fidelidade tem uma característica típica que a distingue de outras virtudes. Podemos compará-la, no campo das belas artes, com a música em relação à pintura e a escultura: posso contemplar, num só momento, uma bela estátua ou um quadro famoso, mas não posso escutar, instantaneamente, a Nona Sinfonia de Beethoven ou A Flauta Mágica de Mozart: aqui é indispensável o seu “desdobramento” no tempo, a sua "historicidade"... De modo análogo, a fidelidade não pode realizar-se senão como experiência “histórica”. A fidelidade não tem medo do futuro, precisamente porque só nele pode realizar-se como tal; e sobretudo quando se trata da fidelidade do amor e no amor, vive-se em plenitude, mesmo no nível humano, só no horizonte do “para sempre”. É o próprio Nietzsche que afirma: "Toda alegria requer eternidade." Paradoxalmente, aquilo que parecia ser um risco, torna-se a condição indispensável da possibilidade.
Gostaria de terminar este parágrafo com um texto muito bonito, que sem dúvida muitos de Vocês ouviram ou leram alguns decênios atrás. É tirado da famosa Carta sobre o Celibato Sacerdotal, de Karl Rahner. Dirigindo-se ao seu interlocutor, lhe pergunta: "Que valor terão, afinal, para Você esta questão jurídica e todas as previsões jurídicas para o futuro, se Você se mantém fiel à sua vida e às suas decisões fundamentais? No fundo, nenhum.
Permita-me que me exprima francamente e com clareza? Não espero o "futuro", como aquela escultura da catedral de Friburgo que representa uma freira idosa que está mostrando o seu último dente para dar a entender que estava ainda em tempo para casar. Eu já escolhi (...) Sou sacerdote. Jamais me arrependi disto”9.
9. CONCLUSÃO
Se terminasse esta reflexão com um convite a fazer uma relação entre as virtudes teologais e as dimensões do tempo, imagino que pareceria fora de lugar e irrelevante. Tentarei mostrar a sua validade, como conclusão e projeção no futuro.
Diz Cervantes, no Dom Quixote, que não existe livro, por mais feio que seja, que não tenha algo de bom. Aplico isto a uma obra que apareceu nos anos ‘60, e que é considerada a expressão mais radical da “teologia da morte de Deus": o Evangelho do Ateísmo Cristão, do teólogo americano Thomas J. J. Altizer10. Deste livro, as críticas mais benévolas comentaram, ironicamente, que não era nem evangelho, nem ateísmo, nem cristão. Todavia, no final o autor lança um desafio (tal é o título do último capítulo) que podemos aceitar e que permitirá compreender melhor o que queremos dizer.
O autor coloca "as virtudes teologais" (sem chamá-las deste modo) em estreita relação com as dimensões do tempo: a fé com o passado, a esperança com o futuro, o amor com o presente; depois afirma: quem quer basear-se na fé se ancora num passado anacronístico; quem vive na esperança, se aliena refugiando-se num futuro inexistente; é pois necessário rejeitar ambos os modos, para viver no contínuo presente do amor; a esta alternativa se reduziria a vida cristã, segundo Altizer. De algum modo esta mesma idéia encontra-se na interpretação pósmoderna da Encarnação do Filho de Deus em Gianni Vattimo, no seu livro Credere di Credere.
Como dizíamos, é sugestiva esta relação entre as virtudes teologais e as dimensões temporais, embora seja inaceitável o seu caráter de "alternativa": ou esta ou aquela. Ao contrário, somente na sua total integração, como tripla atitude teologal, com um sólido fundamento antropológico, estas três virtudes podem encontrar seu sentido pleno. Embora seja indiscutível que a mais importante é o amor, é necessário salientar que não existe amor cristão sem fé cristã e sem esperança cristã: "E seu mandamento é este: que tenhamos fé no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, como Ele nos ordenou” (1 Jo 3, 23).
Em vez de nos queixar do tempo atual, assumamos com confiança no Senhor o desafio que nos propõe: somente a partir de uma fé sólida que alimenta uma "esperança viva" e se manifesta num amor concreto e incondicional a Deus e a nossos irmãos nos quais reconhecemos o rosto do Senhor Jesus, poderá ser relevante a nossa fidelidade na vida consagrada: assim tem sido na tradição de nossos Institutos, a começar dos nossos Fundadores e Fundadoras. Só um presente fiel ao seu passado e aberto ao futuro poderá ser relevante e significativo, no contínuo presente do serviço de Deus e do mundo, por amor.
Um árvore é sadia e vigorosa quando tem raízes que afundam na profundidade obscura da terra; quando o seu tronco se projeta para as alturas, recebendo a seiva que a raiz lhe oferece, e possibilitando em seus ramos o nascimento e o amadurecimento de seus frutos. Sem a raiz que remete a um passado histórico concreto e real, sem o tronco da esperança que nos lança para o futuro, e sem os frutos do amor, sempre presente, seremos uma árvore seca, que seria melhor cortar e utilizar como lenha ou deixar simplesmente que seque. Peçamos ao Espírito do Senhor, com a colaboração materna de Maria, que vivifique de tal modo os nossos Institutos, que cada um deles constitua um bosque que ofereça sombra fresca, purifique o ar poluído que nosso mundo respira e produza com abundância frutos de salvação para todos os nossos irmãos e irmãs aos quais o Senhor nos envia!
5 Cfr. JÜRGEN MOLTMANN, La Catastrofe atomica: e Dio, dov’è?, Urbino, Il Nuovo Leopardi, 1987, p. 11.
6 Ibidem, citando Günther Anders.
7 S. TERESA DI GESÙ BAMBINO, Opere Complete, Roma, Libreria Editrice Vaticana – Edizioni OCD, 1997,
p. 91.
8 Ibidem, 221-223.
9 KARL RAHNER, Siervos de Cristo, Barcelona, Ed. Herder, 1970, p. 206.
10 THOMAS J. J. ALTIZER, Il Vangelo dell’Ateismo Cristiano, Roma, Ubaldini Ed., 1969.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Primeira Parte A FIDELIDADE, FONTE DE VIDA PLENA.


1. INTRODUÇÃO
A finalidade desta reflexão, mais que pretender dizer algo "novo", é estimular a reflexão comum. Por isso, procurarei manter-me o mais fiel possível ao título e ao significado do mesmo: oferecer uma moldura antropológica na qual possam situar-se propostas que ajudem a robustecer a fidelidade da vida consagrada daqueles que a ela são chamados: com particular atenção às gerações jovens.
Está fora de dúvida que a problemática fundamental toca a medula e o desenvolvimento da fé, partindo da experiência pessoal e comunitária do Deus de Jesus Cristo. Pressupondo isto, aqui devemos fazer uma "redução metodológica" de uma perspectiva específica: talvez possamos aproximar-nos o mais possível desta problemática, onde Natureza e Graça, sem confundir-se, encontram-se e interagem! Concretamente, o tema da fidelidade (não somente no sentido vocacional) de tal modo toca aspectos essenciais da pessoa, que necessariamente devemos renunciar a uma visão exaustiva, e devemos contentar-nos com situá-lo dentro desta moldura antropológica.
De um lado, esta problemática não é exclusiva da vida religiosa ou consagrada: basta pensar na situação dramática, e muitas vezes trágica, de tantos casamentos e famílias no mundo, mesmo de católicos! No campo da vida religiosa, atinge do mesmo modo Institutos de fundação recente, como Congregações mais antigas e até Ordens eremíticas e monásticas. Mais ainda: embora nos interesse sobretudo em relação às gerações jovens, não se refere somente a elas: a possibilidade de afastar-nos do seguimento radical de Jesus não desaparece até a morte. Como indica bem e perspicazmente D. Bonnhoeffer, a primeira palavra que o Senhor disse a Pedro é também a última: "Segue-me!"
Antes de abordar o conteúdo desta reflexão, convém explicitar formalmente a sua avaliação assiológica: trata-se de uma situação problemática, até memo perigosa, da qual é preciso defender-se, ou de ums que, além de ser inevitável, torna-se um desafio fascinante para a nossa fidelidade criativa a Deus, à Igreja e à humanidade? Penso que estamos convencidos de que, não obstante toda a seriedade que a situação exige, trata-se antes desta segunda alternativa: é a conseqüência de crer que o Espírito Santo continua presente e atuante em nossa Igreja e no mundo; mas também porque neste, como em muitos outros aspectos, se faz presente a "lei do pêndulo”: o nosso tempo sublinha dialeticamente elementos que, de forma explicável mas injusta, tinham sido descuidados em outras épocas. De nós depende, com a ajuda do mesmo Espírito, buscar o seu justo equilíbrio.
Falando simbolicamente: a cultura atual, sobretudo juvenil, deu uma volta total no caleidoscópio antropológico: contempla-se uma imagem totalmente nova, mas na qual podemos reconhecer os mesmos fatores estruturais que, na cultura precedente, refletiam a luz de um modo muito diferente, e por isto, também projetavam uma imagem diferente. Cremos, pois, que se trata, segundo a feliz expressão de G. K. Chesterton, de uma daquelas virtudes que se tornaram "loucas": esperamos que a doença não seja incurável!
Ainda no campo formal, achei mais conveniente escolher uma linha, entre outras, esperando que seja suficientemente relevante como para oferecer pistas de reflexão suficientes.A alternativa teria sido acenar a muitos elementos, necessariamente de modo superficial e impossível de aprofundar. Com outras palavras, recordando o provérbio: "quem tudo quer tudo perde", optei pela atitude oposta: abranger pouco, para tentar privilegiar a profundidade.
2. A HISTORICIDADE, HORIZONTE E CAMINHO DE REALIZAÇÃO HUMANA
Não há dúvida que, entre muitos outros fatores que configuram a cultura atual, a "descoberta" da historicidade humana constitui um dos mais relevantes. Não se trata de algo "novo" que não existia antes, ou que não era percebido universalmente. Trata-se antes daquelas coordenadas da existência humana que, justamente porque são onipresentes, correm o perigo, paradoxalmente, de tornar-se inatingíveis. Bastaria tomar qualquer página da Sagrada Escritura para reconhecer que a Palavra de Deus não se compreende absolutamente sem o pressuposto da historicidade humana. Sem ela, nem a revelação de Deus, nem a liberdade humana, nem o pecado ou a conversão existiriam.
Esta "presença implícita" da historicidade humana na Revelação acentua, entre outros fatores, o valor do "hoje" defronte do passado, e até do futuro: o que conta não é, digamo-lo com uma imagem, o peso das ações boas ou más realizadas e colocadas numa balança, e sim a situação atual. Recordemos, entre muitos outros, o célebre texto de Ezequiel: “Se o malvado se afasta de todos os pecados que cometeu e observa todos os meus preceitos e age com justiça e retidão, ele viverà, não morrerá. Nenhuma das culpas cometidas será recordada, mas viverá pela justiça que praticou " (Ez. 18, 21-22). Igualmente, o salmo 95 (94), sugerido no início da oração litúrgica cotidiana: "Se ouvirdes hoje a voz do Senhor, não endureçais o vosso coração" (v. 7-8); ou, mais dramaticamente, as comoventes palavras de Jesus na cruz ao ladrão arrependido: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43). Isto leva, sem dúvida, a uma avaliação mais qualitativa que "quantitativa" da existência humana, sem identificá-la, necessariamente, com a relação entre atitudes e atos no campo moral.
Por isso, falando de "descoberta", referimo-nos mais precisamente à sua tematização explícita, ligada à filosofia do século XX, (mesmo se as raízes já se encontram ao menos no século XIX), e, mais concretamente, ao existencialismo, constituindo uma das contribuições mais válidas e permanentes desta corrente filosófica e cultural.
Como o título deste parágrafo indica, "horizonte e caminho", não se quer indicar apenas que o ser humano vive na história (dentro do mundo e do universo inteiro, que, analogamente, podem chamar-se também, graças à mediação humana, "históricos"): isto é evidente; porém, mais intrinsecamente, pretende-se afirmar que o homem é um "ser histórico" justamente porque se realiza, ou se destrói, na história: tanto no nível pessoal, como comunitário, e até em escala mundial: principalmente numa época na qual as coordenadas geográficas cedem sempre mais a sua relevância às históricas, nesta "aldeia global" que está se tornando o nosso planeta.
Não se trata somente de uma importância quantitativa, um "mais"; porém, sobretudo de uma relevância qualitativa, já que a historicidade constitui um paradigma, erige-se no centro de uma Gestalt que inclui todos os elementos estruturais humanos de uma nova síntese (recordando a imagem do caleidoscópio).
Esta tematização da historicidade trouxe conseqüências em todos os campos da existência humana: basta recordar a revolução que provocou no conceito de educação e formação, entendida como "formação permanente", referida em primeiro lugar não à atualização específica ou eventual, como muitas vezes se entende, mas à convicção de que estamos em formação a vida toda, e que, portanto, não podemos considerar ninguém já "formado." (Analogamente, no campo moral, não se concebe um "homo viator" definitivamente perdido, nem já “confirmado na graça”).
Isto traz consigo uma mudança radical na maneira de expor a "formação inicial", e mesmo a etapa seguinte, inadequadamente chamada "formação permanente", como se fosse posterior à inicial. Embora levando em conta que a coisa mais importante não é mudar as palavras, e sim renovar seu conteúdo, convém ao menos mencionar o problema, que não é simples, da maneira de impostar esta "formação inicial" de modo que não seja, nem algo separado daquilo que virá depois, e menos ainda um antídoto contra, mas tampouco se limite a uma simples "primeira etapa" de um processo. No fundo, procura-se esclarecer o que significa dizer que "a formação (enquanto) permanente anima e orienta a formação inicial."
Neste horizonte de historicidade, integra-se plenamente uma daquelas "palavras-chave" que atualmente “têm direito de cidadania” até na vida consagrada: a busca da realização pessoal. Trata-se de um aspecto ineludível, mas também fonte de mal-endtendidos e mesmo de frustrações.
A respeito disto, gostaria de mencionar um texto esclarecedor do Pe. Friedrich Wulf SJ, que fala da fenomenologia teológica da vida religiosa:
"Na base da vida religiosa que deseja ter um fundamento teológico e espiritual, encontra-se um ser tocado pelo Mistério Divino do mundo e da vida (...) Este impacto se apresenta sobretudo de três modos: como ser tocado por Deus, por Jesus Cristo ou pela situação funesta do mundo. Trata-se de tipos ideais que apenas ressaltam diversos centros de gravidade, mas não existem jamais em forma pura. São estreitamente vinculados pelos seu próprio conteúdo, isto é, pela revelação cristã. Um ser tocado por Deus que não incluísse a mediação decisiva e o múnus redentor de Jesus, como a responsabilidade pela salvação do mundo e dos outros seres humanos, seria tão pouco cristão como um ser preocupado pela situação funesta do mundo que não tivesse como centro o Deus da nossa salvação, revelado em Jesus. Quem escolhesse como finalidade da sua vida, na medida em que se pode escolher por si mesmo, uma mística e contemplação que excluísse o mundo, seria tão culpado de retalhar essencialmente a mensagem salvífica cristã, como aquele que concebesse a sua vocação apostólica somente como um serviço funcional. Não obstante isto, deve haver prioridades, acentuações, porque senão tudo continuaria a ser teoria e não se adequaria à peculiaridade de cada um, à especificidade e vocação pessoal"[1].
Tudo isto é plenamente válido e esclarecedor; mas não é verdade que, junto com esta tripla motivação essencial e inseparável da vida religiosa e consagrada – o absoluto de Deus, a seqüela/imitação de Jesus Cristo e a salvação do mundo – ressalta-se, ao menos de modo implícito, a preocupação pela realização pessoal? Pode resultar fácil ignorar, e até querer excluir este aspecto, como expressão de egoísmo individualista e de um "psicologismo" malsão: todavia, se lemos com atenção o Evangelho, jamais encontraremos uma recusa, por parte de Jesus, desta pretensão: o que o Senhor faz é indicar o caminho autêntico para esta realização. Não é significativo que tenhamos esquecido demasiadas vezes que as bem-aventuranças não são normas morais ou religiosas, e sim promessas de felicidade?
Mais do que rejeitar ou anatematizar, é preciso discernir e esclarecer: somente é válida, na vida consagrada, quando se trata de uma realização em Cristo, unida indissoluvelmente aos três aspectos acima mencionados. Evidentemente, aqui exerce uma função decisiva a justa compreensão e atuação do conceito de idoneidade vocacional que permite integrar ambas as dimensões, a objetiva e a subjetiva.
Um dos aspectos mais fascinantes na contemplação dos grandes santos e santas, é considerá-los como pessoas realizadas e felizes. Se somos chamados a ser, como diz Vita Consecrata, uma "terapia espiritual" para o mundo de hoje, e queremos salientar o "profundo significado antropológico" dos conselhos evangélicos, não podemos ignorar esta dimensão: não basta viver a castidade, a pobreza e a obediência de maneira radical e plena: é necessário que, mesmo no nível humano, sejam atitudes irradiantes e atraentes, expressão de maturidade e plenitude (cfr. VC 87-91).
3. A LIBERDADE, O VALOR SUPREMO DA REALIZAÇÃO HUMANA
No interior do paradigma da historicidade, a liberdade adquire uma importância decisiva, justamente porque o ser humano se percebe, não como algo "programado de antemão", como um computador, mesmo o mais sofisticado, e sim como uma pessoa, como alguém que tem a vida nas próprias mãos, que pode dispor dela, que pode decidir o que deseja fazer com ela; aliás: o que quer ser, através dela.
Neste sentido, podemos recordar a frase, intencionalmente exagerada e provocadora de J.-P. Sartre: “A existência precede a essência.” Ninguém, nenhum ser humano ou divino pode decidir por mim aquilo que eu quero ser. Por detrás desta atitude podemos encontrar a expressão de um prometeísmo mais ou menos ateu, mas também um desafio que nos faça compreender que Deus não pode querer de nós, seus filhos, um amor e uma dedicação que não sejam plenamente livres.
Convém analisar mais a fundo a liberdade como dimensão essencial do ser humano. Sem dúvida, não podemos aceitar uma supremacia da liberdade que procure elevar-se acima de qualquer instância ou valor: mas tampouco pode-se rejeitá-la ou pregar contra ela. Lamentamos muitas vezes uma liberdade que degenera em libertinagem, etc.; mas qual é o perfil e a dinâmica desta atitude, para poder compreendê-la, enfrentá-la e dar-lhe resposta?
De forma semelhante à historicidade, esta superestima da liberdade não é só quantitativa (“o máximo"), mas também qualitativa, isto é núcleo de um paradigma em torno do qual giram todos os outros valores. Quando não se leva isto em consideração, torna-se impossível entender certas atitudes que parecem contraditórias.
Menciono um exemplo, não certamente casual. Diante do deplorável tema dos abusos e moléstias sexuais, sem dúvida injustificáveis, e da não menos deplorável manipulação dos mesmos, constatamos na sociedade e nos meios de comunicação uma "dupla medida" muitas vezes hipócrita: como é possível que esta sociedade, que procura punir a mínima falta neste particular, tolere ao mesmo tempo a sua exacerbação em forma de pornografia quase sem restrições? Vista do paradigma da sexualidade, esta atitude dupla resulta incompreensível; mas a partir de outro paradigma, o da liberdade, não só é compreensível, mas torna-se lógico: no fundo afirma que, quando se trata de adultos (= maiores de 18 anos), podem fazer o que quiserem, com absoluta liberdade, contanto que não prejudiquem a terceiros (aqui novamente: "na sua liberdade").
Obviamente, não procuro de modo algum justificar tal atitude; ao contrário, aqui se percebe, a meu ver, o cerne do verdadeiro problema. Como se indicava acima, não se trata só de uma avaliação quantitativa (= exagerada) da liberdade, mas é considerada, qualitativamente, como paradigma da realização humana. Diante disto, é preciso dizer: a liberdade não constitui um paradigma, não é o valor fundamental que permite a realização da pessoa humana: é, ao invés, a característica que deve acompanhar todos os valores humanos, para que o sejam realmente.
Com outras palavras: a liberdade, como adjetivo, deve acompanhar todo substantivo: senão, este último perde o seu caráter de valor. Porém, quando o adjetivo quer tornar-se substantivo, absolutiza a liberdade, autodestruindo-se, e destruindo o próprio sujeito. (Convém recordar a etimologia da palavra "absoluto": ab-solutus nos evoca o “desligamento” de qualquer outra coisa).
Contra esta absolutização formalista da liberdade, podemos citar até um autor de modo algum suspeito de “ascetismo”, Frederico Nietzsche:
"Tu te chamas livre? Quero conhecer teu pensamento dominante, e não que escapaste de um jugo. És alguém ao qual é lícito escapar de um jugo? Mais de um lançou para fora de si o seu último valor jogando fora a sua última escravidão. Livre de que? Isto pouco interessa a Zaratustra! Os teus olhos devem anunciar-me com clareza: livre para que?”[2] (o grifo é do autor).
Gostaria de aprofundar este tema recorrendo ao pensamento daquele que tem sido considerado, na literatura universal, o maior conhecedor do coração humano: F. M. Dostoievski. É um lugar comum citá-lo como o escritor que defendeu, mais do que qualquer outro, a liberdade humana; todavia soube, por outro lado, apresentar genialmente os riscos desta mesma liberdade, quando procura elevar-se como valor absoluto da existência humana. Dentro da impressionante galeria de personagens de Dostoievski, encontramos três que encarnam, de diferentes perspectivas, a tentação da liberdade absoluta, que corre o risco de levá-los à autodestruição, e em dois casos acontece (mediante o suicídio). Na perspectiva ética, encontramos Raskolnikov, de Crime e Castigo, obsessionado pela questão da posssibilidade de existirem "homens superiores", e se lhes é lícito fazer tudo (e, concretamente, se ele é um desses seres excepcionais); Kirillov, no romance Os Demônios, que encarna a radicalização teológica da liberdade, pretendendo contemporaneamente eliminar e suplantar Deus, entendido como Senhor déspota absoluto e Patrão de toda liberdade; e sobretudo Stavroguin, no mesmo romance, do ponto de vista ontológico: personagem fascinante para todos os que o rodeiam, embora se trate apenas de uma bela estátua que, infelizmente, na realidade é vazia por dentro.
Um dos melhores especialistas de Dostoievski, Luigi Pareyson, comenta:
A sua liberdade é puro arbítrio, que, não tendo diante de si nenhuma norma para violar, tampouco tem um objetivo para se propor, e portanto gira sem rumo, dissolvendo-se na apatia, na náusea, na inatividade, numa espécie de inútil experimentação e de inércia destrutiva. Seu poder era grande e temível, e grande e terrível é a destruição que daí deriva: os homens que sofreram seu influxo se perdem; e ele próprio, ‘caráter sombrio e demoníaco’, põe-se o problema supremo: ser ou não ser? Viver ou destruir-se?’ E se destrói: o suicídio imprime o selo do nada a uma vida que teve somente o nada como lema”[3].
Sem dúvida, trata-se de casos extremos; mas justamente por isto, manifestam com perfeição o perigo de uma liberdade que não aceita, humildemente, ser adjetivo que acompanha inseparavelmente os valores que realizam, humanamente – e, no nosso caso, tambémcristãmente e religiosamente – a pessoa: em primeiro lugar e antes de tudo, o amor, porque não existe amor autêntico que não seja livre. A liberdade é o incontornável terminus a quo da realização humana, abaixo do qual perdemos a nossa dignidade humana, e nos transformamos no rebanho que segue o Grande Inquisidor (e Deus nos livre de ser "grandes inquisidores" que atentam contra a liberdade dos seus irmãos!): mas de nenhum modo constitui o terminus ad quem desta realização.
4. "...É UMA EXPERIÊNCIA...”
Dentro desta constelação de valores (historicidade – liberdade – realização) ocupa um lugar privilegiado a experiência. Palavra "mágica", que tem uma íntima relação com cada um deles: permite a realização humana, no horizonte da historicidade, como momento privilegiado do exercício da liberdade.
Deixando de lado a análise, sem dúvida enriquecedora, da etimologia desta palavra a partir de diversos campos lingüísticos, sobretudo o latino (ex-perior = expertus) e o germânico (Erfahrung = er-fahren), vamos diretamente ao seu significado típico. Aqui também, convém precisar que não se trata de uma realidade "nova": nas diversas culturas existem expressões proverbiais que manifestam a dificuldade de "aprender com a cabeça do outro” e tirar proveito.
Desde sempre percebeu-se que viver tudo na primeira pessoa é algo certamente não sempre desejável, mas em todo caso inevitável.
Além disto, em praticamente todas as culturas tradicionais existem "ritos de iniciação" que tornam possível a passagem de uma etapa a uma outra da vida, experiências que envolvem a pessoa toda, e não só a sua capacidade intelectual ou afetiva, mas sim ambas as dimensões ao mesmo tempo, como também a sua realidade corporal, muitas vezes de maneira dolorosa. É mister acrescentar, todavia, que, embora esses "ritos de iniciação " persistam na cultura atual[4], em formas muitas vezes disfarçadas, existe uma diferença essencial: atualmente não se procura, através destas experiências únicas, integrar-se no passado mítico, mas abrir-se a um futuro promissor, rejeitando – algumas vezes de modo explícito - o seu passado.
Nesta linha experiencial podemos mencionar a dimensão mistagógica da catequese cristã dos primeiros séculos, que visava não apenas preparar os catecúmenos mediante aquisição de conhecimentos, mas também fazê-los viver uma experiência de encontro com o Senhor Jesus e, por meio dele, no Espírito Santo, com o Pai. Hoje em dia também, a pastoral, sobretudo a dos jovens, procura desenvolver esta dimensão essencial. Mais ainda: a experiência mística caracteriza-se justamente por este traço específico do encontro com o Deus Trino e Uno (embora não dependa da capacidade humana, mas é um dom divino).
Tudo isto nos mostra que não estamos perante uma dificuldade a superar, mas sim perante uma realidade muito rica para discernir e assumir: vencendo, sem dúvida, os perigos que implica.
a) Entre esses perigos encontramos, em primeiro lugar, o seu caráter formal
(analogamente ao que se dizia da liberdade). Dá a impressão de que toda experiência se justifica pelo próprio fato de sê-lo: quantas vezes já não ouvimos, para justificar qualquer atitude inaceitável, esta explicação: "...é uma experiência"! Parafraseando, talvez de modo irriverente, a primeira carta de Pedro: a experiência torna-se semelhante ao amor fraterno, na medida em que é um manto que “cobre a multidão dos "pecados"” (cfr. 1Pd 4, 8). Falando da experiência na formação, tenho constatado que, junto com o orgulho, é um dos impedimentos estruturais mais fortes para o arrependimento e a conversão, porque a alternativa seria privar-se da experiência, e isto é percebido, formalmente e a priori, como uma limitação e um empobrecimento. Chegou-se a dizer – graças a Deus, não na vida consagrada! – que qualquer forma de sexualidade, mesmo a mais aberrante, é preferível à abstenção do seu exercício! Parece-me o extremo formalista da avaliação da experiência enquanto tal.
b) Esta maneira de pensar muitas vezes deturpa o próprio sentido da experiência. Já o fato de passar, do singular "da" experiência, como expressão da sabedoria de quem sabe aprender da vida partindo do cotidiano e habitual, ao plural "das" experiências como momentos extraordinários e excepcionais, desloca o acento da atitude para o ato. Há uma canção mexicana que exprime magnificamente isto: “Nada te han enseñado los años, siempre caes en los mismos errores” ("Nada te ensinaram os anos: cais sempre nos mesmos erros ") que equivale a dizer: “tiveste muitas experiências, mas não tens experiência", não aprendeste nada da vida, não te tornaste um "experto" dela.
c) Desta superestima unilateral da própria experiência derivam dois grandes perigos para a vida consagrada atual: o individualismo, justamente porque ninguém pode substituir-me no aprendizado da vida: “é a minha experiência”; e junto com ele, o relativismo: "cada qual pensa conforme sua própria experiência": fora disto, todo o resto é abstração. Não há normas objetivas que possam prevalecer sobre o que a vida me "ensinou".
Gostaria de aprofundar este ponto. A direção espiritual dos religiosos em formação inicial tem-me levado à convicção de que os problemas, sobretudo no campo da afetividade, em larga medida derivam da maneira de enfrentá-los (ou até, de não querer enfrentá-los); além da atitude “da avestruz” a qual, com a cabeça enfiada na areia, pensa que ninguém está vendo a sua situação (quando, na realidade, todos estão perfeitamente informados e comentam com todos, exceto com o interessado), é típico partir do pressuposto: "devo viver sozinho esta experiência de relação afetiva, porque ninguém será capaz de entender-me: vão pensar – a começar dos meus formadores – que se trata de uma moça como qualquer outra, mas é uma pessoa única, singular”, etc... no fundo, ninguém duvida que todo ser humano é unico e singular, e por este motivo não se podem dar "receitas"; mas somos todos seres humanos, concretamente, homens ou mulheres, e por isto pode haver critérios que, dentro da inegável singularidade de cada situação, nos permitem situá-la e discerni-la o mais objetivamente possível, e sobretudo ajudarnos uns aos outros.
d) Para superar este formalismo, é preciso ressaltar que o que importa não é só fazer experiência, mas qual é o valor do qual fazemos experiência: ou seja, o próprio conteúdo. Com isto retomamos o que acima foi dito, a saber: a necessidade de superar uma educação-formação intelectualística que pretenda interiorizar conteúdos vitais sem fazer experiência deles. Falando enfaticamente, e cedendo por uma vez ao jogo de palavras: o que conta não é o valor da experiência, e sim a experiência do valor a interiorizar e assimilar. Nas Constituições dos Salesianos, o artigo central que procura caracterizar a formação como um processo permanente, traz como título: "A experiência formativa", que é assim descrita: "O salesiano faz experiência dos valores da vocação salesiana nos diversos momentos da sua existência, e aceita a ascese que este caminho comporta" (C SDB 98).
Na vida de Buda encontramos uma narração lendária muito significativa. Desde o seu nascimento, seu pai quis evitar-lhe a experiência de todo tipo de situações "negativas" que pusessem em perigo a sua percepção otimista da vida: concretamente a velhice, a doença e a morte. Todavia, essa preocupação foi contraproducente: bastou uma ocasião em que, abandonando o palácio familiar, teve diversos encontros: com um doente, um ancião e um enterro, para mergulhar-se na mais profunda crise depressiva.
Muitas vezes, com a maior boa vontade, queremos fazer algo semelhante, nos diversos campos da vida consagrada, sobretudo na etapa inicial... mas tal atitude, em vez de ser formativa, é profundamente deformante. Precisamos dizer, sem dúvida, que os nossos confrades jovens, e não tanto jovens, não entram precisamente em crise diante do olhar cansado de uma anciã próxima da morte, mas sim diante do olhar cativante de uma bela moça cheia de vida: e especialmente quando se procurou mantê-los à margem de toda experiência "perigosa" no campo da relação afetiva com as pessoas do outro sexo...



[1] F. WULF, Fenomenología teológica de la Vida Religiosa, en: Mysterium Salutis IV/2, Madrid, Ed. Cristiandad, 2ª Edición, 1984, p. 454.

[2] FREDERICO NIETZSCHE, Así habló Zaratustra, Madrid, Alianza Editorial, 1984, 12ª Ed., p. 308.
[3] LUIGI PAREYSON, Le Dimensioni della Libertà in Dostoevskij, in: S. GRACIOTTI, Ed., Dostoevskij nella coscienza d’oggi, Firenze, Sansoni Ed., 1981, p. 110.
[4] Cfr., a este respeito, a extraordinária obra de MIRCEA ELIADE (por exemplo, Lo Sagrado y lo Profano, Barcelona, Ed. Labor, 6a. Ed., 1985.